A de Amor, A de Abel!

Coluna | A de Amor, A de Abel!

Há amores que não se explicam porque explicá-los seria diminuir o que se sente. O Inter e Abel Braga são assim: dois personagens que o destino insiste em colocar na mesma página, ainda que às vezes tentem escrever capítulos separados.

Ontem, contra o RB Bragantino, o Inter chegou ao jogo como quem chega atrasado ao próprio coração: aflito, ofegante, achando que talvez já não fosse mais possível. E então surgiu Abel, com aquele jeito de velho conhecido que bate na porta sem avisar, mas que você sempre deixa entrar porque sabe que a casa fica melhor com ele dentro.

Abel tem essa coisa rara, meio literária, de transformar desespero em respiro. Ele olha para o time como quem olha para um amor antigo: conhece cada defeito, cada mania, cada cicatriz. Mas, exatamente por conhecer tanto, é que sabe acolher. Não exige perfeição, exige entrega. E o Inter, ontem, entregou-se a ele como quem reencontra um afeto que achou que tinha perdido.

O jogo em si foi quase um diálogo amoroso. De um lado, o Inter inseguro, pedindo desculpas pelo ano inteiro. Do outro, Abel, com aquela paciência de quem já viveu todas as crises possíveis com esse clube, dizendo em silêncio: “calma, eu estou aqui”. E estava mesmo. No gesto, no olhar, na calma improvável de quem já viu o Gigante tremer e, por isso mesmo, sabe como segurá-lo.

Há treinadores que ganham partidas. Abel ganha sentidos. Ontem, ele salvou muito mais que uma campanha: salvou uma história que não merecia outra queda, salvou um torcedor que já não sabia onde apoiar a fé, salvou um clube que, por um momento, esqueceu o próprio tamanho.

Abel não voltou por heroísmo. Voltou por aquele tipo de amor que Verissimo sempre dizia que a gente não escolhe, ele simplesmente nos escolhe. O Inter e Abel são isso: uma história de idas e vindas, de desencontros que nunca duram tanto quanto os reencontros, de laços que o tempo só reforça.

E o mais bonito é que, ontem, no meio do medo, do suor e do quase-abismo, algo muito simples aconteceu: o Inter lembrou que era amado. Amado de verdade, daquele jeito que protege, que ampara, que entra em campo sem uniforme, mas com alma.

No fim das contas, a tarde foi uma crônica de amor. Daquelas que começam tensas, atravessam o desespero e terminam com a certeza reconfortante de que, por mais que o mundo gire, há pessoas, e clubes, que sempre terão para onde voltar.

Ontem, Abel voltou.
E o Inter, como quem reencontra o próprio coração, respirou.

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